quarta-feira, abril 27


"Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território protegido por muros de receio.
Quem quiser vir agora terá de ter paciência, terá de ter sabedoria.

Mas ainda que não tenha nada disso, virá, e vai nos invadir, e vai nos desarrumar, e vamos renascer com esse desconserto.

Pois estávamos fora da realidade, fora do mundo, fora de nós.
A aventura do amor nos devolve a nós mesmos."


Lya Luft

segunda-feira, abril 25

Sumiço


Um suspiro. Provavelmente o quinquagésimo e alguns do dia, já que não para com essa irritância de suspiros a todo instante. No escuro apenas uma luz no meio da bagunça organizada do quarto pequeno. O celular e seus olhos virados para ele, num ato involuntário de esperar algum sinal de que sua amada esteja pensando nela. Na cabeça e nos lábios feridos a mesma canção cantarolada baixinho de novo, de novo e de novo.
Seu corpo se arrepia e ela se lembra da última noite em que estiveram juntas, ali, deitadas e felizes. Parecia haver séculos e cada segundo a mais de espera era tomado pela agonia da saudade boba de paixão. A luz se apaga automaticamente e ela não reascende dessa vez. Leva seu olhar para o brilho de prata da lua cheia que entra pela janela e o canto se torna mais nítido, com palavras agora.
Levanta-se e recosta o corpo frágil na parede próxima a janela, fecha seus olhos e continua a cantar, sentindo a brisa quente da madrugada lavar sua face úmida pelas lágrias que agora escorrem, sem parar, de seus olhos inocentes.
Ao reabrir os olhos vê o reflexo de seu amor no vidro da janela e suspira novamente, imaginando-a a sorrir para ela. Ergue o celular para discar o número já decorado, levando o aparelho rapidamente à orelha. O toque é interrompido e ela sabe que há alguém na linha.
- Alô? - Mas antes que haja qualquer resposta, apenas diz. - Eu sinto a sua falta.

quinta-feira, março 17

Sábado, 20


Quem diria que um simples desabafo anônimo fosse desencadear em todo esse amor? E o mais incrível, tão rápido assim? Como já disse Caio F. Abreu, "Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim [...]". Você fez isso comigo, meu doce.
Só que a paixão pareceu se consumir ainda mais rápido do que surgiu e temo estar ao fim. Pode ser apenas impressão, ou essa maldita insegurança, mas você não me passa mais a sensação de que me ama como antes. E isso me destrói.
Fazem quase exatamente quatro meses desde que lhe disse aquelas coisas. E aproximadamente dez meses desde que tudo realmente começou, pelo menos pra mim. Quando conheci a garota que, mais tarde, se tornou uma das coisas mais importantes pra mim.
Consegue me ouvir cantar aos sussurros músicas de amor pela madrugada? Consegue me sentir? Consegue captar a intensidade desse amor e a forma como ele me invade e preenche todos os minutos de todas as horas desse tempo? Consegue sentí-lo em si? Eu gosto de imaginar que sim, quando as amoras estão roxas e minha canção preferida toca no rádio. Me agrada pensar que você pensa em mim todas as noites quando deita sua cabeça no travesseiro macio, que suspira quando ouve a nossa música e que sorri ao ler as coisas que eu escrevo. Eu gosto de imaginar você sussurrando palavras bonitas nos meus ouvidos enquanto ando sozinha por aí e quando tomo café pela manhã.
Esse não é um desabafo triste ou apelativo. É apenas a minha forma de mostrar como eu amo você e sempre quero amar. Muitos e muitos meses mais.
Minha pequena Flor de Lótus.

segunda-feira, março 14

Viúva Negra


"You know I will obey, so please, don’t make me beg. [...] It feels so good." - Green Day

You know I make you wanna scream... Essas eram as palavras em sua mente naquela entorpecida manhã de Segunda-feira.
Acordou se contorcendo ainda antes do crepúsculo matinal. Sentiu a leve pressão interna em seu abdômen.
- Ainda? - Gemeu preguiçosamente, enquanto colocava a mão direita por cima da calcinha, entre as pernas, para checar se era mesmo o que ela pensava. Sim.
Que diabos está acontecendo comigo, droga? Fechou novamente os olhos e se lembrou do início de tudo isso. Apenas dois dias antes. No começo, inocentes gravações de voz, ou melhor, será que eram inocentes? Não da parte dela, certamente. Tudo fazia parte de um pequeno jogo de sedução no qual as duas participantes ganhariam ao final. Mas começou a ficar perigoso e agora as palavras faladas dançavam pela mente da confusa garota, criando cenas obscenas e umedecendo lugares inapropriados em momentos inadequados.
Ela sabia que já era tarde demais. Mas achava interessante a forma como o fogo havia voltado com tudo depois de tanto tempo se sentindo fria. As frases indecentes e desejos verbalizados já haviam conseguido que a outra tivesse o controle completo de sua mente. E agora seu corpo queria sentir toda aquela intensidade. Queria sentir o prazer que ela sempre rejeitou por trás da sua espessa máscara de auto-controle. Queria se sentir dominada, abusada, seduzida... Queria sentir que também conseguia seduzir.
E naquele momento ela só conseguia desejar mais e mais daquele veneno. O veneno que quando foi injetado nas entranhas dos seus sentidos, fez com que ela quisesse cada vez mais até que os gritos cessassem levando com eles quase toda a vida, na qual, em seus últimos momentos, ela só desejaria mais um pouquinho de prazer perecível pra se satisfazer completamente.

terça-feira, fevereiro 1

Assassina saudade


Não há beleza em nada sem você por perto. Não há sorrisos nem esperança. Não vejo o sol.
Essa maldita ausência dilacera minha carne, numa dor aguda e rasgante. "Onde você está?". Estou pingando. Sangue e suor. O cheiro do desespero me nausea. "Virá me salvar?", sussurro entre os lábios pálidos e trêmulos. Lágrimas. Escorrem sem parar e queimam as feridas abertas. "Eu amo você, por favor, está doendo muito...". Silêncio. "Por onde anda?". A lembrança de sua voz dizendo timidamente que me ama e rindo a seguir ecoa em minha mente perturbada. Distante. Mas aquela inconfundível risada me conforta por um momento. "Ela me ama", penso e sorrio enquanto o sangue seca por meu corpo e o cheiro férreo do mesmo alcança minhas narinas vindo da poça ao meu redor.
E eu continuo vivendo cada instante nessa angustiante espera, esperando que as saudades não me matem. Mas eu sou forte, posso esperar para sempre.